terça-feira, 17 de maio de 2011

Noite

         Lenta chega a noite na tarde de primavera. Os pássaros se recolhem para seus formidáveis e engenhosos ninhos, construídos de folhas secas e gravetos. O pôr-do-sol no horizonte anuncia que no amanhã teremos um maravilhoso dia. As pessoas que passam mais cedo, agora se atrasam, pois os dias estão mais longos. A vida se recolhe para o anonimato. É noite. Os seres vivos perambulam a procura de silêncio que possa preencher a alma e desfazer as anomalias do dia que está se acabando.
         Nas casas, muitas assombradas, ouvem-se canções que fazem recordar a infância e a adolescência que longe vai. Para alguns, é o começo de tudo. Para outros, continuidade. Mas tudo acontece na sua hora, no seu tempo.
         Na praça da cidade, muitas pessoas do sexo feminino aguardam para mais uma noite de trabalho “extra”. Sabem que a vida é difícil e que é a “única” forma de sobrevivência. Os transeuntes passam, olham, pensam e seguem, por mais que queiram permanecer, pois por trás de uma “santa” alma, pode estar escondida a sua própria identidade que, ainda, ninguém quis conhecer.
         Carros com faróis luminosos estacionam nas ruas da pequena cidade e, algumas mulheres, as mais atrevidas, passam, construindo com a expressão do seu corpo, um poema, lírico talvez, deixando os motoristas extasiados, de desejos.
         A noite se torna ainda mais escura e nem mesmo as estrelas permanecem para iluminar as ruelas e a praça da matriz. Mas, como a noite tem lá suas surpresas, a lua, de soslaio, aparece para iluminar o ambiente e as almas desprotegidas das mulheres, às que ainda não conseguiram “vender o bônus” da sua sensualidade.
         O frio chega, mesmo sendo primavera. A madrugada se aproxima e é hora de voltar. O sereno da manhã enfraquece a voz dos pássaros e das raparigas que aguardavam seus clientes ao relento. A transfiguração das que retornaram se torna visível em cada semblante. O sorriso se desfaz em troca de um valor monetário injusto, que servirá para o almoço de apenas mais um dia.
         O sol desponta e a praça fica deserta. Alguns motoristas ainda dormem nas ruelas que serviram para saciar desejos. Outros, estão a caminho de casa, pois possuem família.
         Os pássaros voltam a cantar lindas e infindáveis melodias. As mulheres tentam viver, tentam sonhar que a vida ainda pode ser bonita. Mas, o vazio da noite passada não as deixa sorrir, pois sabem que para o corpo, a noite é uma rotina.
         Lenta chega a noite na tarde de primavera...

Vanderlei Camini

As férias da morte...


Quando tinha sete anos de idade, saí de casa para passar minhas férias na casa da minha avó, que distanciava em torno de quinze quilômetros. Fomos em duas, eu e minha irmã mais velha de oito anos. Nossos pais nos recomendaram muitas coisas antes de partirmos. Estavam com certo receio de deixar que duas crianças fossem tão longe sozinhas, uma vez que mal sabiam a estrada. A mãe aprontou uma mochila com algumas roupas (quase não tínhamos roupas, éramos muito pobres e morávamos na roça) e algumas frutas para comermos durante o caminho.
Lembro-me muito bem que saímos de manhãzinha, num dia muito frio. Foi um momento de muita alegria, de entusiasmo, e de medo até, pois era a primeira vez que iríamos passear e ficar fora da casa dos pais.
Despedimo-nos da família, pai, mãe, um irmão e duas irmãs mais novas. Estávamos prontas (Será?) para uma aventura. Na primeira parte do caminho, tudo ocorreu bem. A ansiedade de chegar na casa da avó era intensa, pois além da avó, tinha o avô, tios, primas e primos que estavam nos esperando.
Mas no meio do caminho, quando eram percorridos em torno de oito quilômetros, o tempo começou a se modificar. Aquele lindo sol, amarelo, iluminado e quente que nos acompanhava, começou a desaparecer e a dar lugar à nuvens escuras e negras. Quanto mais nós apressávamos o passo, mais o céu escurecia, mais as nuvens negras se aproximavam de mim e da minha irmã. Acreditávamos que tudo aquilo logo passaria, que era apenas um mau tempo e que o sol voltaria a brilhar intensamente para acompanhar os nossos passos.
Ao passar num local mais escuro, onde existiam muitas árvores nos dois lados da estrada, lembro-me muito bem que sentimos medo. Eu e minha irmã nos olhamos e começamos a chorar, pois não sabíamos onde estávamos.
Neste instante, ficamos paralisadas, pois ao longe ouvíamos sons de gritos muito fortes, desesperadores e comoventes. Estes gritos foram se aproximando cada vez mais e, nós duas, sozinhas, sem saber o que fazer, ali, entregando à sorte o nosso destino.
Seguramo-nos pelas mãos e ficamos bem perto uma da outra. Num momento de estremo medo, avistamos folhas e árvores se mexendo e as vozes que ouvíamos longe, agora ali, perto, a dois metros de nós duas, sem podermos decifrar o seu real conteúdo. Olhamos para o céu e imploramos ajuda. Queríamos rezar, mas não sabíamos. As palavras ficaram mudas em nossas bocas. Apenas nossos olhos falavam uma para a outra. Ficamos ilhadas e presas à própria estrada.
De repente, apareceu em nossa frente diversos túmulos, muitos já corroídos pelo tempo, outros nem tanto. Formavam ao longo da estrada um cemitério. Ficamos “brancas”. Os defuntos começaram a sair dos caixões e dos túmulos e vir ao nosso encontro. Todos eles estavam de chapéu branco. No rosto dos defuntos haviam restos de carne, pois ainda estavam em decomposição. Não tinham olhos, mas parecia que enxergavam a gente. Da boca e das orelhas dos defuntos saíam bichos de todos os tipos. Começamos a gritar e a gritar cada vez mais intensamente. De um momento para o outro, nossa voz emudeceu e ficamos ali, firmes, paradas, agarradas, sem ação e pensando que era o nosso fim.
Nesse instante, os defuntos nos cercaram, colocaram suas mãos em cima dos nossos ombros e perguntaram o que estávamos fazendo naquele lugar. Lembro-me que as palavras ainda não saíam de nossas bocas, que estávamos paralisadas, imóveis, mas com muito medo de morrer.
Os defuntos começaram a dançar ao nosso redor, gritavam vozes do além, ameaçavam com palavras e gestos desconhecidos. Naquele momento já havia uma centena de túmulos na beira da estrada. Todos os defuntos estavam fora dos mesmos e nos cercavam. Nas mãos carregavam bolas de fogo e ameaçavam jogar em cima de nós duas. Um defunto jogou uma bola de fogo em nós, mas a bola se apagou antes de nos atingir. Foi o momento mais horrível que passamos. Esperávamos sempre pelo pior. Afinal, estávamos vendo o nosso fim, trágico fim para duas crianças que ainda não haviam feito a primeira comunhão.
            Pensamos em nossa família, nos pais, irmãos e na avó que estava nos esperando. Mas tudo naquela hora não valia mais nada, pois a nossa vida estava por um fio.
            Quando tudo parecia que os defuntos pudessem se acalmar, chegou mais túmulos, e estes pareciam covardemente assassinos. Tivemos outro momento de pânico, pois estavam enfurecidos. Um caixão se abriu e o defunto jogou-se contra nós, agarrando-nos fortemente. Ele era horrível, sem olhos, sem boca e com carne podre sangrando por todo o corpo. Naquele momento, iríamos morrer de verdade. O nosso mundo havia terminado ali, no meio da estrada, numa viagem de férias.
            Acordamos depois de treze segundos, de chapéu branco na cabeça...   

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Motorista

            Rodoviária de Porto Alegre. Naquela hora faltavam 30 minutos para o ônibus tomar a estrada. Como de rotina, ele fazia o percurso da capital para a serra. Eu sabia que era o último ônibus do dia, por isso me apressei o mais que pude para não perdê-lo. Saí adiantada do trabalho, com permissão do chefe, é claro. Mas, como era fim de tarde de uma sexta-feira, o trânsito parecia não estar de acordo com o fim-de-semana que se aproximava: lento.
            Faltavam seis quadras para chegar na rodoviária e o táxi que me conduzia parecia não chegar nunca. Olhei para o relógio e faltavam apenas doze minutos para o ônibus partir. Fiquei impaciente, nervosa. Cheguei até mesmo colocar a culpa no pobre motorista do táxi. Pedi para que fizesse outro trajeto, pois supus que conhecia. Não fui atendida. A hora se aproximava e vi que não daria mais tempo, que voltar seria a melhor solução.
            Mas o motorista, com a calma de um Rabino ao proferir uma homilia, ao perceber da minha preocupação e fúria, tentou me acalmar, em vão, pois eu estava muito impaciente e não queria perder o ônibus de jeito nenhum, pois era o último do dia, ou da semana talvez.
            Tudo o que eu queria era chegar logo na rodoviária! E se não tiver mais passagem? comentei com o motorista. E se não chegarmos a tempo? O que minhas amigas vão dizer se eu não for visitá-las? Tudo isso o motorista ouvia pacientemente e tentava de forma muito gentil e carinhosa me acalmar.
            Eu sabia que na serra a festa estava preparada especialmente para mim, só para mim, e eu não poderia faltar de jeito nenhum, mesmo que caísse chuva de pedra.
            Foi quando eu tive uma idéia. Por que não dizer uma brilhante idéia! Sem dizer nada para o motorista do táxi, abri a porta e desci do carro, que estava parado em conseqüência do engarrafamento. Vi que ficou sem entender minha atitude, mas como havia deixado alguns pacotes e minha mochila no banco de trás, lembrada do esquecimento muito tempo depois,  senti que o moço nem se preocupou muito com o que eu iria fazer. Olhei para ele e fiz sinal de positivo. Ele me olhou e sorriu, sem entender, surpreso. Saí correndo por entre os carros como uma louca. Eu só queria era a rodoviária. Só pensava em rodoviária e chegar logo, não importava como, mesmo que para isso pudesse sofrer o desconforto de um eventual atropelamento. Isso de nada me importava naquela hora.
            Ao faltar cinco minutos para o ônibus partir, cheguei na estação e logo procurei pelo balcão, que ficava atrás de uma loja de conveniências. Comprei a passagem e nem quis receber o troco. Era a última que havia sobrado, e era do último banco. Não tinha importância, estava feliz pois iria viajar, e era isso o que eu mais queria para o momento.
            A viagem foi muito cansativa, mas a alegre companhia de uma velha senhora muito simpática,  tornou-a mais leve e mais confortável.
            Ao chegar na serra, todos estavam me esperando com balões e com champanha, muita champanha. A chegada foi realmente uma grande festa. Saímos pelas ruas da cidade em carreata e num buzinaço só. Chamamos a atenção de toda a cidade, que, curiosa, tentava saber o que estava acontecendo. Eu me sentia uma rainha, mesmo sem ter ganho título algum.
            Fomos para a casa de uma amiga. Estava tudo preparado. Comidas de todos os tipos. Bebidas finas e até frutos do mar. Comemos, bebemos e falamos sobre o longo tempo em que não nos víamos. Como não podia deixar de fazer, falei sobre a minha aventura para não perder o ônibus. Todos estavam muito felizes, mas, e a minha mochila? os presentes que esqueci no táxi?...
            No clube da cidade havia outra grande festa. Resolvemos ir para a mesma, pois não tínhamos horário para dormir e a noite prometia. Todos se divertiam muito, dançavam e até cantarolavam algumas músicas conhecidas que a banda tocava.
            No final da festa, alguém se aproximou e, educadamente, pediu para dançar comigo. Aceitei, pois achei o rapaz interessante: bom papo, boa pinta e, pela minha surpresa, me chamou pelo nome: “Franchesca.”  Estranhei!
            Mas a maior surpresa porém, ainda estava por vir. Foi quando o bom moço, de fala mansa e muito simpático, falou ao meu ouvido: “Tenho teus presentes no carro. Eu sou o motorista do táxi, àquele de quem você fugiu no engarrafamento”...

                       
Vanderlei Camini