Lenta chega a noite na tarde de primavera. Os pássaros se recolhem para seus formidáveis e engenhosos ninhos, construídos de folhas secas e gravetos. O pôr-do-sol no horizonte anuncia que no amanhã teremos um maravilhoso dia. As pessoas que passam mais cedo, agora se atrasam, pois os dias estão mais longos. A vida se recolhe para o anonimato. É noite. Os seres vivos perambulam a procura de silêncio que possa preencher a alma e desfazer as anomalias do dia que está se acabando.
Nas casas, muitas assombradas, ouvem-se canções que fazem recordar a infância e a adolescência que longe vai. Para alguns, é o começo de tudo. Para outros, continuidade. Mas tudo acontece na sua hora, no seu tempo.
Na praça da cidade, muitas pessoas do sexo feminino aguardam para mais uma noite de trabalho “extra”. Sabem que a vida é difícil e que é a “única” forma de sobrevivência. Os transeuntes passam, olham, pensam e seguem, por mais que queiram permanecer, pois por trás de uma “santa” alma, pode estar escondida a sua própria identidade que, ainda, ninguém quis conhecer.
Carros com faróis luminosos estacionam nas ruas da pequena cidade e, algumas mulheres, as mais atrevidas, passam, construindo com a expressão do seu corpo, um poema, lírico talvez, deixando os motoristas extasiados, de desejos.
A noite se torna ainda mais escura e nem mesmo as estrelas permanecem para iluminar as ruelas e a praça da matriz. Mas, como a noite tem lá suas surpresas, a lua, de soslaio, aparece para iluminar o ambiente e as almas desprotegidas das mulheres, às que ainda não conseguiram “vender o bônus” da sua sensualidade.
O frio chega, mesmo sendo primavera. A madrugada se aproxima e é hora de voltar. O sereno da manhã enfraquece a voz dos pássaros e das raparigas que aguardavam seus clientes ao relento. A transfiguração das que retornaram se torna visível em cada semblante. O sorriso se desfaz em troca de um valor monetário injusto, que servirá para o almoço de apenas mais um dia.
O sol desponta e a praça fica deserta. Alguns motoristas ainda dormem nas ruelas que serviram para saciar desejos. Outros, estão a caminho de casa, pois possuem família.
Os pássaros voltam a cantar lindas e infindáveis melodias. As mulheres tentam viver, tentam sonhar que a vida ainda pode ser bonita. Mas, o vazio da noite passada não as deixa sorrir, pois sabem que para o corpo, a noite é uma rotina.
Lenta chega a noite na tarde de primavera...
Vanderlei Camini
Nenhum comentário:
Postar um comentário