Quando tinha sete anos de idade, saí de casa para passar minhas férias na casa da minha avó, que distanciava em torno de quinze quilômetros. Fomos em duas, eu e minha irmã mais velha de oito anos. Nossos pais nos recomendaram muitas coisas antes de partirmos. Estavam com certo receio de deixar que duas crianças fossem tão longe sozinhas, uma vez que mal sabiam a estrada. A mãe aprontou uma mochila com algumas roupas (quase não tínhamos roupas, éramos muito pobres e morávamos na roça) e algumas frutas para comermos durante o caminho.
Lembro-me muito bem que saímos de manhãzinha, num dia muito frio. Foi um momento de muita alegria, de entusiasmo, e de medo até, pois era a primeira vez que iríamos passear e ficar fora da casa dos pais.
Despedimo-nos da família, pai, mãe, um irmão e duas irmãs mais novas. Estávamos prontas (Será?) para uma aventura. Na primeira parte do caminho, tudo ocorreu bem. A ansiedade de chegar na casa da avó era intensa, pois além da avó, tinha o avô, tios, primas e primos que estavam nos esperando.
Mas no meio do caminho, quando eram percorridos em torno de oito quilômetros, o tempo começou a se modificar. Aquele lindo sol, amarelo, iluminado e quente que nos acompanhava, começou a desaparecer e a dar lugar à nuvens escuras e negras. Quanto mais nós apressávamos o passo, mais o céu escurecia, mais as nuvens negras se aproximavam de mim e da minha irmã. Acreditávamos que tudo aquilo logo passaria, que era apenas um mau tempo e que o sol voltaria a brilhar intensamente para acompanhar os nossos passos.
Ao passar num local mais escuro, onde existiam muitas árvores nos dois lados da estrada, lembro-me muito bem que sentimos medo. Eu e minha irmã nos olhamos e começamos a chorar, pois não sabíamos onde estávamos.
Neste instante, ficamos paralisadas, pois ao longe ouvíamos sons de gritos muito fortes, desesperadores e comoventes. Estes gritos foram se aproximando cada vez mais e, nós duas, sozinhas, sem saber o que fazer, ali, entregando à sorte o nosso destino.
Seguramo-nos pelas mãos e ficamos bem perto uma da outra. Num momento de estremo medo, avistamos folhas e árvores se mexendo e as vozes que ouvíamos longe, agora ali, perto, a dois metros de nós duas, sem podermos decifrar o seu real conteúdo. Olhamos para o céu e imploramos ajuda. Queríamos rezar, mas não sabíamos. As palavras ficaram mudas em nossas bocas. Apenas nossos olhos falavam uma para a outra. Ficamos ilhadas e presas à própria estrada.
De repente, apareceu em nossa frente diversos túmulos, muitos já corroídos pelo tempo, outros nem tanto. Formavam ao longo da estrada um cemitério. Ficamos “brancas”. Os defuntos começaram a sair dos caixões e dos túmulos e vir ao nosso encontro. Todos eles estavam de chapéu branco. No rosto dos defuntos haviam restos de carne, pois ainda estavam em decomposição. Não tinham olhos, mas parecia que enxergavam a gente. Da boca e das orelhas dos defuntos saíam bichos de todos os tipos. Começamos a gritar e a gritar cada vez mais intensamente. De um momento para o outro, nossa voz emudeceu e ficamos ali, firmes, paradas, agarradas, sem ação e pensando que era o nosso fim.
Nesse instante, os defuntos nos cercaram, colocaram suas mãos em cima dos nossos ombros e perguntaram o que estávamos fazendo naquele lugar. Lembro-me que as palavras ainda não saíam de nossas bocas, que estávamos paralisadas, imóveis, mas com muito medo de morrer.
Os defuntos começaram a dançar ao nosso redor, gritavam vozes do além, ameaçavam com palavras e gestos desconhecidos. Naquele momento já havia uma centena de túmulos na beira da estrada. Todos os defuntos estavam fora dos mesmos e nos cercavam. Nas mãos carregavam bolas de fogo e ameaçavam jogar em cima de nós duas. Um defunto jogou uma bola de fogo em nós, mas a bola se apagou antes de nos atingir. Foi o momento mais horrível que passamos. Esperávamos sempre pelo pior. Afinal, estávamos vendo o nosso fim, trágico fim para duas crianças que ainda não haviam feito a primeira comunhão.
Pensamos em nossa família, nos pais, irmãos e na avó que estava nos esperando. Mas tudo naquela hora não valia mais nada, pois a nossa vida estava por um fio.
Quando tudo parecia que os defuntos pudessem se acalmar, chegou mais túmulos, e estes pareciam covardemente assassinos. Tivemos outro momento de pânico, pois estavam enfurecidos. Um caixão se abriu e o defunto jogou-se contra nós, agarrando-nos fortemente. Ele era horrível, sem olhos, sem boca e com carne podre sangrando por todo o corpo. Naquele momento, iríamos morrer de verdade. O nosso mundo havia terminado ali, no meio da estrada, numa viagem de férias.
Acordamos depois de treze segundos, de chapéu branco na cabeça...
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