segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Motorista

            Rodoviária de Porto Alegre. Naquela hora faltavam 30 minutos para o ônibus tomar a estrada. Como de rotina, ele fazia o percurso da capital para a serra. Eu sabia que era o último ônibus do dia, por isso me apressei o mais que pude para não perdê-lo. Saí adiantada do trabalho, com permissão do chefe, é claro. Mas, como era fim de tarde de uma sexta-feira, o trânsito parecia não estar de acordo com o fim-de-semana que se aproximava: lento.
            Faltavam seis quadras para chegar na rodoviária e o táxi que me conduzia parecia não chegar nunca. Olhei para o relógio e faltavam apenas doze minutos para o ônibus partir. Fiquei impaciente, nervosa. Cheguei até mesmo colocar a culpa no pobre motorista do táxi. Pedi para que fizesse outro trajeto, pois supus que conhecia. Não fui atendida. A hora se aproximava e vi que não daria mais tempo, que voltar seria a melhor solução.
            Mas o motorista, com a calma de um Rabino ao proferir uma homilia, ao perceber da minha preocupação e fúria, tentou me acalmar, em vão, pois eu estava muito impaciente e não queria perder o ônibus de jeito nenhum, pois era o último do dia, ou da semana talvez.
            Tudo o que eu queria era chegar logo na rodoviária! E se não tiver mais passagem? comentei com o motorista. E se não chegarmos a tempo? O que minhas amigas vão dizer se eu não for visitá-las? Tudo isso o motorista ouvia pacientemente e tentava de forma muito gentil e carinhosa me acalmar.
            Eu sabia que na serra a festa estava preparada especialmente para mim, só para mim, e eu não poderia faltar de jeito nenhum, mesmo que caísse chuva de pedra.
            Foi quando eu tive uma idéia. Por que não dizer uma brilhante idéia! Sem dizer nada para o motorista do táxi, abri a porta e desci do carro, que estava parado em conseqüência do engarrafamento. Vi que ficou sem entender minha atitude, mas como havia deixado alguns pacotes e minha mochila no banco de trás, lembrada do esquecimento muito tempo depois,  senti que o moço nem se preocupou muito com o que eu iria fazer. Olhei para ele e fiz sinal de positivo. Ele me olhou e sorriu, sem entender, surpreso. Saí correndo por entre os carros como uma louca. Eu só queria era a rodoviária. Só pensava em rodoviária e chegar logo, não importava como, mesmo que para isso pudesse sofrer o desconforto de um eventual atropelamento. Isso de nada me importava naquela hora.
            Ao faltar cinco minutos para o ônibus partir, cheguei na estação e logo procurei pelo balcão, que ficava atrás de uma loja de conveniências. Comprei a passagem e nem quis receber o troco. Era a última que havia sobrado, e era do último banco. Não tinha importância, estava feliz pois iria viajar, e era isso o que eu mais queria para o momento.
            A viagem foi muito cansativa, mas a alegre companhia de uma velha senhora muito simpática,  tornou-a mais leve e mais confortável.
            Ao chegar na serra, todos estavam me esperando com balões e com champanha, muita champanha. A chegada foi realmente uma grande festa. Saímos pelas ruas da cidade em carreata e num buzinaço só. Chamamos a atenção de toda a cidade, que, curiosa, tentava saber o que estava acontecendo. Eu me sentia uma rainha, mesmo sem ter ganho título algum.
            Fomos para a casa de uma amiga. Estava tudo preparado. Comidas de todos os tipos. Bebidas finas e até frutos do mar. Comemos, bebemos e falamos sobre o longo tempo em que não nos víamos. Como não podia deixar de fazer, falei sobre a minha aventura para não perder o ônibus. Todos estavam muito felizes, mas, e a minha mochila? os presentes que esqueci no táxi?...
            No clube da cidade havia outra grande festa. Resolvemos ir para a mesma, pois não tínhamos horário para dormir e a noite prometia. Todos se divertiam muito, dançavam e até cantarolavam algumas músicas conhecidas que a banda tocava.
            No final da festa, alguém se aproximou e, educadamente, pediu para dançar comigo. Aceitei, pois achei o rapaz interessante: bom papo, boa pinta e, pela minha surpresa, me chamou pelo nome: “Franchesca.”  Estranhei!
            Mas a maior surpresa porém, ainda estava por vir. Foi quando o bom moço, de fala mansa e muito simpático, falou ao meu ouvido: “Tenho teus presentes no carro. Eu sou o motorista do táxi, àquele de quem você fugiu no engarrafamento”...

                       
Vanderlei Camini

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